Há evidências de que as pessoas tendem a processar toda afirmação como verdadeira, e só depois passam a considerar a possibilidade de que ela seja falsa.

A difusão de notícias falsas nas redes sobre a vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada no Rio de Janeiro na noite de 14 de março, é vista por pesquisadores como uma prévia de como poderá ser o ambiente digital durante a campanha eleitoral no Brasil em 2018.

“Se alguém ainda tinha dúvidas de que as redes sociais vão ser um território de disputa fortíssima de narrativas durante as eleições, o caso dos boatos sobre Marielle mostrou que elas serão, sim, um tremendo campo de batalha”, diz Marco Ruediger, diretor de um grupo da FGV que analisa as redes sociais, a Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-DAPP).

Segundo a instituição, Marielle foi tema de 2,14 milhões de tuítes entre a noite de 14, quando ela e o motorista Anderson Gomes foram assassinados, e a meia-noite de domingo, 18 de março. Para efeito de comparação, ainda de acordo com dados da FGV, o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff atingiu 1,5 milhão de menções no Twitter, mas no período de um dia.

  • Por que o criador do botão curtir do Facebook apagou as redes sociais do celular

Ruediger diz que a dinâmica nas redes sociais durante as eleições brasileiras serão “centrais e paradigmáticas” no mundo, vistas como um case (caso) global de democracia e redes sociais, considerando as notícias falsas espalhadas no Brasil e as recentes polêmicas envolvendo o Facebook, após a revelação de que dados privados de mais de 50 milhões de usuários foram usados para fins políticos.

“Veremos uma disputa nas redes entre esquerda e direita e uma disputa das plataformas para mostrarem que papel podem exercer”, afirma.

Mark Zuckerberg, presidente do Facebook, afirmou na semana passada que as eleições no Brasil são uma das preocupações da rede social.

Para entender o que pode acontecer durante as eleições com base no que se viu das notícias falsas sobre Marielle e pensar em possíveis soluções, é preciso começar traçando uma linha do tempo.

Cronologia

As notícias falsas sobre a vereadora se difundiram de maneira já tradicional nas redes: começaram no WhatsApp, aplicativo de mensagens fechado onde não é possível detectar sua origem, e depois foram parar no Twitter e no Facebook. Também houve boatos publicados em vídeos do YouTube.

“A construção do boato me pareceu sofisticada e planejada. Foi uma pequena amostra do jogo sujo que veremos na campanha eleitoral deste ano”, opina Pablo Ortellado, pesquisador do Monitor do Debate Político no Meio Digital, da USP.

Os boatos com diferentes textos, áudios, fotos e vídeo tentavam ligar Marielle ao tráfico de drogas. Depois do WhatsApp, as notícias falsas chegaram às redes sociais na noite de quinta, 15 de março, um dia após o assassinato da vereadora, e, com mais força, na manhã de sexta, 16 de março.

Um dos primeiros tuítes com uma notícia falsa sobre Marielle, identificado pela FGV-DAPP, foi às 10h45 de sexta, 16. Um usuário reproduz um vídeo, sem qualquer relação nas imagens com Marielle, mas ligando “garotos de chinelo sem camiseta” ao Comando Vermelho e afirmando que Marielle era ex-mulher do traficante Marcinho VP. A informação é falsa.

No próprio dia 16, entrando na onda dos boatos, o deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF) e a desembargadora Marilia Castro Neves reproduziram e reiteraram as notícias falsas em suas páginas no Twitter e no Facebook.

CategoryNotícias
Write a comment:

*

Your email address will not be published.

Para Casos de Emergência        (45) 9 9901-8556